domingo, 17 de outubro de 2010

O cheiro da infância



"...Mesmo quando a gente cresce
Fatos de criança não desaparecem
O lugar, a casa, a rua
Uma telha nua sem ninguem por lá

Lá, em cima do telhado
Meu sonho encantado
Era pertinho do céu

E, se todos lá embaixo
Pensassem assim tão alto
Vinham brincar aqui
Comigo no telhado..."


Ah, esse cheiro.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Diaadia

É todo dia o dia do primeiro dia
dia de entrar e olhar, procurar e sentar
pensar, falar.
É dia de entrar na sala da aula da vida,
dessa coisa que é viver.

sábado, 18 de setembro de 2010

Todos os homens

Mil e um homens marcham armados de punhos e consciência.
Um pára.
Pensa.

Por quê?
Se vira e vai para longe.
Outros o seguem por qualquer motivo aparente ou por falta de um.Dali a pouco, mil e um homens marcham em sentido contrário, sem rumo.
Desordenados, distraídos. Longe de qualquer razão, seguem.  
Um homem pára.
Pensa.

Por quê?
Se vira e vai sem rumo, mas vai.O seguem.Logo mil e um homens marcham.
Um pára.
Pensa.

Por quê?

Sacicapaguá

Seria eu, você em outro lugar?
Que não eu, mas você a pensar
Tão iguais que inevitável seria a confusão:
Quem é quem neste lugar?
Nem eu saberia perceber
as diferenças do pisar

Quem você para denunciar
nosso eterno brincar?
E de pronto sei bem quem esta em cada lugar

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Verdura


De repente
me lembro do verde
da cor verde
a mais verde que existe
a cor mais alegre
a cor mais triste
o verde que vestes
o verde que vestiste
o dia em que te vi
o dia em que me viste

De repente
vendi meus filhos
a uma família americana
eles têm carro
eles têm grana
eles têm casa
a grama é bacana
só assim eles podem voltar
e pegar um sol em Copacabana.

(Poesia de Paulo Leminsk, musicada por Caetano Veloso)

domingo, 25 de outubro de 2009

Maré

Tem dias que tudo parece como o sopro do ar
Tem dias que a sorte se lança como um dardo a jogar
A gente tem que aguentar co'a voz firme que tem
que seja por mais um instante, depois deixa tudo no além
assim leva a vida cantando, nadando junto do mar
é só a correnteza passar, você vai ver que vai melhorar

domingo, 18 de outubro de 2009

Dos Bons.

Aqui vai um texto que gosto muito de Paulo Leminski.


O Assassino era o Escriba

Meu professor de análise sintática era o tipo do sujeito inexistente.
Um pleonasmo, o principal predicado de sua vida,
regular como um paradigma da 1° conjunção.
Entre uma oração subordinada e um adjunto adverbial,
ele não tinha dúvidas: sempre achava um jeito
assindético de nos torturar com um aposto.
Casou com uma regência.
Foi infeliz.
Era possessivo com um pronome.
E ela era bitransitiva.
Tentou ir para os EUA.
Não deu.
Acharam um artigo indefinido em sua bagagem.
A interjeição do bigode declinava partículas expletivas,
conectivos e agentes da passiva, o tempo todo.
Um dia, matei-o com um objeto direto na cabeça.